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Fui me despedir da menina que perdeu o assovio. Subindo às escadas que conduziam ao seu quarto, um forte aperto no coração por saber que talvez fosse à última vez, o meu adeus.

Chegando lá, o mesmo rostinho. Senti uma saudade do seu sorriso, da alegria que sempre me acolhia, do abraço apertado… Vê-la ali, frágil, sem sequer poder ouvir a sua voz deu uma tristeza, mas estava ali para falar, agradecer.

Disse muitas coisas à garota que perdeu o assovio. Falei do meu amor imenso por ela, da alegria de poder tê-la conhecido e vivido um tempo razoável ao seu lado e fiquei ali, observando-a, até que me sentei na cadeira que estava ao seu lado e, de repente, adormeci…

Estava em uma grande sala observando aquelas pessoas sorridentes, ouvindo um cara barbudo e cabeludo de pé em um púlpito. Do seu lado esquerdo, havia uma senhora linda, de um olhar penetrante e do lado direito estava a minha querida amiga.

Em frente a eles, algumas pessoas que já tinha visto em alguma ocasião. Alegrei-me ao ver o João Paulo conversando com Chiara, sorrindo, felizes.

Todos estavam ajudando aquele Senhor barbudo a decidir o futuro da garota que perdeu o assovio. Ela não queria voltar, estava bem ali, já havia vivido momentos difíceis na terra e achava que já era hora de voltar para casa. Mas, o apelo popular terreno, colocava – O justamente em dúvida se essa era a medida correta.

Havia também a mãe da minha querida amiga. Ela já havia investido toda a sua vida cuidando da menina que perdeu o assovio. Tinha deixado tudo, se anulado completamente para poder estar sempre disponível aos “previstos imprevistos” que a situação apresentava. Essa estratégia fez com que ela deixasse de se olhar no espelho, como a princesa, e isso transferiu todo o sentido da vida da mãe da minha amiga, para a filha dela.

O que seria melhor? O conselho estava tentando descobrir…
A minha vontade de optar, de ajudar, era vã. Sentia uma dor, cruel, por não poder fazer nada, só assistir, talvez ajudar a clamar pela volta da menina que perdeu o assovio, mas a decisão não era minha.

Caminhando pela longa sala, senti que alguém me tocava.

Acordei assustado e sorri para a enfermeira. Estava lá novamente, sentado na cadeira diante do corpo adormecido da menina que perdeu o sorriso.
Não sabia o que dizer, nem o que pedir, mas antes de sair disse internamente: OBRIGADO.

Em homenagem a Paulinha Bichara, que acabou de partir para o Paraíso. Paulinha tinha 17 anos e morava em Frutal, há dois anos estava em São Paulo, na fila de espera para o transplante de pulmão que possivelmente curaria a sua fibrose sística. Paulinha se foi e com ela muitos corações. Fica a alegria de poder tê-la conhecido e saboreado tanta vida, tanta alegria, tanta coragem.

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