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Sofrimento: dimensão que nos faz profundamente humanos | Karina Gonçalves

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A fragilidade, os limites, a finitude da existência, o impossível. Essas são algumas realidades que nos possibilitam vivenciar a nossa humanidade, conscientes da nossa incapacidade em encontrar respostas concretas às várias situações dolorosas que nos acometem durante a vida.

Mas existe, nessa mesma experiência, tipicamente humana, a possibilidade de abertura ao que, por natureza, não conseguimos conter plenamente e nem compreender com exatidão: o mistério de algo maior que move tudo no Universo.

O exemplo de Jesus: sofrimento que transforma

cruz-3Mistério que, no cristianismo, tem em Jesus Cristo sua encarnação e no grito da cruz o seu cume. Sim, naquela dor, Jesus abraçou todos os homens e os levou a participar da vida divina. Também Ele, homem como todos nós, se viu sem resposta e no seu profundo abandono nos encontrou.

Mesmo não acreditando no dogma que envolve essa experiência histórica, mística, teológica podemos nos ater a reflexão que envolve a sua dimensão antropológica. O que a experiência de Jesus pode nos dizer, como seres humanos, independente da religião que professamos (ou não)? Que o sofrimento pode tornar-se um lugar de encontro.

 A vida revela sua potência e sentido profundo a partir do sofrimento e da capacidade de sofrer. A aceitação do próprio sofrimento como evento existencial implica a possibilidade de ir além dele e, assim, momentos de encontros fecundos podem ser gerados. Não se trata de conformismo, mas vivencia ativa da dor.

Existe um estar junto que é sempre possível! Sofrer com quem sofre, chorar com que chora, não ter respostas, mas se permitir descobrir os caminhos juntos! Compartilhar é a palavra! Comunhão de si e de tudo o que se é com os outros, principalmente aqueles que estão nessa disponibilidade. Assim, o sofrimento passa a ser vivido como parte da própria existência, pessoal e comunitária; como aspecto humano que pode, de maneira surpreendente, nos levar à realização.

Presença de algo maior

Um reconfortante sentimento de paz pode emergir ao constatar que não estamos sozinhos. A presença sutil e estrondosa de algo maior, que nos compreende e quer estar ali, evidencia um AMOR que faz o coração arder. Presença misteriosa que acompanha, oferece confiança, esperança, serenidade.

Em diálogo com a terapia ocupacional, é interessante estabelecer o seguinte paralelo: o profissional é convidado a olhar para além do sofrimento alheio. Justo onde o paciente, geralmente, enxerga apenas o limite, as dificuldades e tudo que perdeu, o terapeuta deve ajudá-lo a descobrir suas potencialidades, dar um novo significado ao seu fazer e, de modo amplo, também o seu viver.

Enquanto a pessoa que está sendo tratada rejeita, ignora, nega a situação dolorosa é difícil visualizar a possibilidade de continuar e, assim, encontrar sentido no cotidiano e nas relações. É justamente o processo de assimilar a dor, integrá-la e reconhecê-la como parte de si, que permite ao paciente continuar a viver e não se conformar em assistir o transcorrer dos dias. Nessa perspectiva, apropriação de si pode significar saber estar na dor, para conseguir colher dela aspectos ainda não conhecidos de si mesmo e dos outros.

Quanto mais o espaço terapêutico configura-se como um espaço de encontro em que vínculos positivos podem ser estabelecidos, é possível proporcionar VIDA a partir da dor. Dessa forma, contempla-se o homem na sua integralidade e favorece-se o exercício da própria humanidade em plenitude.

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 Acessibilidade e inclusão social: preocupação real ou moda? | Karina Gonçalves

Karina Gonçalves da Silva Sobral – Formada em Terapia Ocupacional pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) em 2007, motivada por questões existenciais e busca de respostas em como lidar com o sofrimento do outro, dos tantos outros que já tinha encontrado nas recentes mas, intensas, práticas como terapeuta ocupacional, concluiu em 2011 a “laurea magistrale” em ciências políticas no Instituto Universitário Sophia, na Itália.  Possui experiências, principalmente, no Serviço Público, na área de saúde mental,  e, atualmente, é terapeuta ocupacional com atuação na educação especial.

Dor que não é sofrimento

Acabei de assistir o filme lançado este ano sobre o filósofo «católico» Agostino de Hipona, mais conhecido como Santo Agostinho.

Desde que cheguei ao Instituto Sophia, além de Sócrates, Aristóteles e Chiara Lubich, Agostino se transformou em um mestre que constantemente me ajuda a encontrar intelectualmente o sentido para tantas coisas que permaneciam no âmbito das experiências empíricas.

A sua clareza e profundidade em comunicar seu caminho de discernimento metafísico da realidade me impulsionou a pensar na possibilidade de começar explicar minhas poesias.

Não sou artista, filósofo, poeta, mas um jornalista sedento pela Verdade. Não aquela pseudo-verdade que transforma os valores morais em conceitos relativistas, nem mesmo as falácias hermenêuticas em relação a doutrina cristã, mas uma verdade que transforma, liberta e, acima de tudo, dá ALEGRIA!

Alegria, porém, que vive em relacionamento contínuo com a “dor que não é sofrimento”, que é dimensão nossa, realidade intrínseca, caminho para a Felicidade.  “Não é sofrimento” pois sofrer é  a conseqüência do não encontrar sentido à dor, é não contemplar o caminho do Bem Maior é submeter-se à escolhas baseadas no medo, é contentar-se com uma falsa vida.

Foram esses os questionamentos, sustentados pela grande admiração por Agostino e uma conversa edificante com meu irmão Cristian Sebok, que “maiêuticamente” brotou essa poesia que vos ofereço abaixo:

 

« Dor que não é sofrimento»

 

Dor que não é sofrimento

Que é vontade divina, compreensível lamento

Abraço-te sorrindo, lagrimas escorrendo

T’amo bela dor que não é sofrimento

Venha rápido pra que eu ilumine e cresça

E percorra O Caminho com fim que Ele conheça

Arde-me a alma quando me escapa o sentido-momento

T’amo afetuosa dor que não é sofrimento

Porque sofrer é escolha conseqüente

Entender a relação que envolve coração, alma e mente

Renegar tudo que não é felicidade de estado

T’amo dor, esteja sempre ao meu lado.

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