Cruzar os 40 anos mudou algo em mim que ainda estou tentando nomear. Não foi dramático – não acordei num pânico existencial. Foi mais sutil: comecei a reparar em pequenos hábitos que, de repente, pareciam deslocados. Como se eu estivesse vivendo com o manual de outra versão de mim, e já fosse hora de atualizar.
Um desses hábitos era o álcool.
Depois das nossas penúltimas férias em família no Brasil, tomei a decisão que vinha amadurecendo: parar de beber bebidas alcoólicas. Completamente, mas sem fundamentalismos. Decidi compartilhar essa experiência para, quem sabe, encorajar aqueles que também pensam em fazer o mesmo.
Quero estar mais inteiro para minha família, especialmente para meus filhos, nessa segunda metade da vida. Percebi que certos hábitos já não faziam sentido para quem estou me tornando.
Preciso ser honesto sobre uma coisa: nunca bebi em excesso. Eu sempre gostei de uma cerveja gelada ou de uma caipirinha à beira-mar, principalmente em momentos de comemoração com amigos e familiares. Mas nunca foi algo diário, nunca foi problemático, nunca passou de algumas cervejas numa tarde de futebol ou uns drinques numa festa. Essa moderação, reconheço, tornou muito mais fácil parar. Não estou falando de superar dependência ou de lutar contra vício. Estou falando de abandonar um hábito social que já não fazia sentido para mim.
E tem outro detalhe importante: cresci numa casa onde o álcool simplesmente não estava presente. Meus pais não bebem. Durante toda a minha infância e adolescência, não havia cerveja na geladeira, não havia vinho nas refeições, não havia aquele ritual do “drink de fim de semana.” Isso normalizou, para mim, a ideia de que dá para celebrar, para viver plenamente sem álcool. Muitas pessoas não tiveram esse privilégio – cresceram em ambientes onde beber era não apenas presente, mas esperado, celebrado, às vezes até imposto.
Então, quando digo que parei de beber, preciso reconhecer: parti de um lugar mais fácil que muitos. Não precisei desaprender padrões familiares profundos. Minha jornada foi mais simples, e seria desonesto fingir que não foi.
A questão que me surgia era: qual a diferença que faria substituir esses drinques por algo menos prejudicial à saúde? Quase dois anos depois, a resposta parece simples: quase nenhuma. Mas “quase” importa.
Porque, sim, sinto falta do ritual. Do gesto de abrir uma garrafa gelada depois do futebol. Do sabor específico de uma caipirinha num dia quente. Mas sei que o prazer não estava na bebida em si, mas no que ela sinalizava: pausa, celebração, pertencimento ao grupo.
E é justamente no grupo que essa escolha se torna mais complicada.
Por exemplo, após os jogos de futebol com o time, enquanto todos geralmente bebem cerveja, eu quase sempre opto por um Schorle – aquela mistura suíça de suco de maçã com água com gás. Muitas vezes, colegas vêm me perguntar o motivo dessa atitude “diferente”. Ainda hoje, eu sinto o desconforto do isolamento social. Nada dramático, mas é real. Como se eu tivesse quebrado um código não escrito: depois do futebol, bebe-se cerveja. Ponto.
É curioso como, numa cultura que valoriza tanto a liberdade individual como a Suíça, há tão pouca liberdade para dizer “não” a certas práticas sociais sem precisar justificar. Mas o desconforto passa. Continuo lá, rindo das mesmas piadas, conectado com as mesmas pessoas. Estar sóbrio não me afastou de quem importa. O que me aproxima deles não é o álcool – é o futebol, é a história compartilhada, é o jeito como zoamos uns aos outros.
Chegou um momento em que quis provar para mim mesmo que é possível rir, brincar, ser ridículo e feliz sem precisar de bebida. Que dá para vencer a timidez sem depender de algo que, a longo prazo, faz mal. Não porque sou melhor que ninguém – eu dirijo carro, como carne, uso IA para revisar meus textos. Vivo em contradições como todo mundo. Mas essa contradição específica, eu decidi dispensar.
O processo foi gradual: primeiro reduzir, depois perceber que mesmo em ocasiões especiais a bebida não fazia diferença real. A chave foi desvincular o álcool da ideia de celebração. Se precisamos de bebida para nos divertir, talvez estejamos desviando o verdadeiro propósito das celebrações – que é o encontro em si, não o líquido no copo.
Hoje, prefiro estar completamente presente. Ver meus filhos brincando sem aquela leve névoa que algumas latinhas trazem. Acordar sem peso na cabeça. Essas pequenas coisas criam uma vida diferente – não necessariamente melhor que a de quem bebe com consciência, mas melhor para mim.
Claro, ainda gosto de estar entre amigos, de celebrar, de brincar. Só não preciso de uma taça na mão para isso. E fico pensando: quantas outras coisas fazemos por hábito social, não por escolha real? Onde mais aceitamos desconforto porque “é assim que se faz”?
Não tenho respostas prontas. Mas a sobriedade tem me ensinado a questionar esses automatismos. E isso me deixa mais livre – não porque parei de beber, mas porque escolhi parar. A diferença entre as duas coisas é tudo.
Se você também está pensando nisso, saiba que o desconforto social é real, mas temporário. E que, do outro lado, há uma clareza que vale a experiência. Pelo menos para mim – com todas as vantagens que tive – tem valido.
Leituras relacionadas:
Organização Mundial de Saúde – Ficha informativa – Álcool
Centro de Informações sobre Saúde e Álcool – CISA: Alcoolismo: 10 danos à saúde
