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Segunda temporada de Newsroom: continuando a desvendar o telejornal

segunda temporada de Newsroom

Em setembro de 2012 eu fiz um post sobre a série televisiva “Newsroom”, uma das mais interessantes obras a respeito da vida e dos dilemas da produção telejornalística.

Há poucos dias, terminei de ver a segunda temporada de Newsroom e, novamente, me surpreendi com a capacidade do diretor Aaron Sorkin de mostrar tão bem alguns aspectos que só são possíveis de perceber “de dentro” de um jornal.

Segunda temporada de Newsroom

The-Newsroom-1a-temporada-14Na segunda temporada de Newsroom as questões importantes do jornalismo ainda são debatidas, mas com uma diferença: elas não estão mais diluídas em contextos interessantes e por natureza da profissão, variáveis.

Um (novo) protagonista da série é Jerry Dantana, ambicioso produtor sênior de Washington que recebe uma dica que pode “fazer carreiras e acabar com presidências”. A dica é que na operação Genoa, o governo americano usou Gás Sarin em civis para uma extração de soldados capturados

Na série, a investigação sobre a operação Genoa toma toda a segunda temporada e mostra como um fato polêmico precisa ser profundamente apurado, antes de ser noticiado. Mesmo assim podem ser noticiadas mentiras.

Os personagens de The Newsroom são dotados de uma inteligência sem par, de um idealismo e de um respeito profundo pelo jornalismo. Todos eles possuem uma leveza que contrasta com a gravidade daquilo com que eles lidam no dia a dia, fato que, porém, foi alvo de críticas por ser considerado um retrato hipócrita do jornalismo.

O fim de Newsroom

The-Newsroom-1a-temporada-10Mesmo com Jeff Daniels, que interpreta o âncora Will McAvoy, ganhando neste ano um Emmy de melhor ator em série dramática, a HBO anunciou, na última semana, o cancelamento da aclamada série dramática de Aaron Sorkin, após sua terceira temporada.

Acho uma pena porque a série é realmente um interessante modo de conhecer o que existe por trás das câmeras televisivas. Como profissional ligado ao mundo da comunicação de “massa” vibrei com cada capítulo da série, mesmo se, para os críticos, alguns deles não faziam muito sentido. De qualquer forma, indico muito aos interessados no jornalismo televisivo.

Vídeo do site Omelete sobre a série:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=J6l5evItnY0#t=209]

Ideologia técnica: superá-la por uma verdadeira comunicação

Ideologia técnica

A revolução da internet, exaltada nos anos 90, promoveu a ilusão de que o “universo” virtual iria gerar um novo homem, mais informado e, por isso, consciente da dimensão global da sociedade e da ampla possibilidade de relações sociais. Tudo por meio da técnica.

Essa ideologia técnica, infelizmente, ainda não morreu. Segundo o comunicólogo francês, Dominique Wolton, ela ainda nos faz acreditar “que são os limites da técnica que impedem as mutações sociais e politicas”. Essa espécie de “esoterismo” também ajuda a confundir a comunicação, com a performance das maquinas; a abundância de informação com a intersubjetividade. Segundo Wolton, essa visão é tão “ingênua ou demagógica quanto denegrir a comunicação como processo de intercompreensão, reduzindo-a, ao mesmo tempo, a um simples processo de transmissão unilateral”.

O ser humano por trás da comunicação

Ideologia técnicaComo acenei, nos parágrafos anteriores, a comunicação não se resume a uma técnica. Não se pode negar a importância humana que existe no interior do processo comunicacional, com o risco de descartar sua ontologia relacional e de partilha.

“Expressão e interação, por mais necessárias e uteis que sejam, não são sinônimos de comunicação. Na realidade, quanto mais facilidade técnica houver, mas é preciso lançar uma reflexão especifica sobre o estatuto da recepção”, explica Wolton ressaltando a essência do outro, dentro do processo comunicacional, que vai de encontro com à ideologia técnica que se concentra na transmissão, em vez da relação.

É importante perceber que, quanto mais performático, mais eficaz for o progresso técnico, mais é preciso lembrar que transmitir informações, com rapidez e enorme quantidade, não é comunicar. “Na ponta das redes, há homens, sociedades, culturas, línguas, civilizações. Não computadores…” afirma Wolton.

Além da ideologia técnica

Traçar um caminho que vai na contramão da ideologia técnica é perceber, como premissa, que a sociedade da informação, em que estamos inseridos, não é sinônimo de sociedade da comunicação.

“O progresso técnico permite produzir e distribuir uma grande quantidade de informações. No entanto, isso é comunicação?”, questiona Wolton.

Ao contrário do que se possa crer, o aumento da informação, chegando às dimensões “de massa” não reduz a enorme diferença entre as opiniões. Quanto mais informações, mais opiniões, imaginários e rumores em relações a elas. Em outras palavras, a informação não é instrumento de encontro, mas de ampliação das diferenças, que, em um certo momento, precisam ser negociadas pela comunicação verdadeira.

A evolução da relação entre informação e comunicação

Ideologia técnicaSegundo Wolton, podemos distinguir três etapas nas relações entre informação e comunicação:

  • A primeira é aquela em que surge a “informação nova”, ligada ao acontecimento e à democracia, devendo ser pública, pois diz respeito a todo mundo. Era a informação normativa, porque instrumento de partilha “democrática”, mesmo que, no mundo aristotélico, limita aos membros da elite;
  • Na segunda etapa, há a revolução das novas tecnologias, em que o fluxo da informação invade tudo, misturando o sentido normativo e o funcional;
  • A terceira etapa, aquela que nos encontramos, é a do surgimento das condições necessárias para resgatar e preservar a dimensão normativa da comunicação. Deixam-se a técnica e a economia para reencontrar os valores, a sociedade e, também, os conflitos. Deixa-se a fascinação suscitada pelo volume, pela velocidade e pela transmissão das informações, para encontrar a questão do sentido.

Enfrentar a ideologia da técnica é uma missão das sociedades contemporâneas, imersas em suas crises de identidade e que devem encontrar, fundamentalmente, nos valores comuns, a possibilidade de estabelecer uma comunicação verdadeira, que seja partilha das diferenças essenciais, a partir de um respeito recíproco, e instrumento capaz de negociar interesses e visões de mundo particulares.

Ensino da comunicação: o desafio de estimular a partilha

Ensino da comunicação

A questão pedagógica, relacionada ao ensino das disciplinas ligadas ao universo da comunicação, sempre me “moveu” de alguma forma. Desde em que coloquei o pé na faculdade de jornalismo percebi que, mesmo estudando em dos cursos mais renomados do país, ainda faltava espaço, no ensino da comunicação, para uma reflexão que superasse a unilateralidade do pensamento político-ideológico.

Sinto-me privilegiado por, dentro do contexto formativo, ter encontrado sábios “mestres” que me estimularam a transcender à simples questão técnica, para olhar o jornalismo como instrumento de mobilização social, que pode sim operar transformações, para melhor ou, como tem majoritariamente acontecido, para pior. Contudo, faltou uma reflexão etimológica do que significa “comunicar”.

“O vocábulo ‘comunicação’, em latim communicatio, é derivado de communicare e significa ação (actio) de comunicar, partilhar, pôr em comum. Contudo, para que essa partilha ocorra efetivamente são necessários alguns pressupostos mínimos, como um mesmo idioma ou sistema de signos, valores, entre os sujeitos comunicantes, capazes de tornar similar e simultâneas afecções presentes em duas ou mais consciências”. (Comunicação e centralidade do ser humano. Aspectos éticos relacionais da comunicação jornalística em uma sociedade de massas |tese de “laurea magistrale” no Instituto Universitário Sophia)

A definição acima aponta para uma dimensão da comunicação, inclusive aquela “de massas”, que se atenta ao seu caráter fundamentalmente relacional. Saí da universidade um expert em observar e julgar os detentores do poder midiático, ancorado em uma visão excessiva dos postulados da Escola de Frankfurt. Mas, passados alguns anos da conclusão do meu curso, percebo que a práxis jornalística transcende essa visão maniqueísta da realidade e se encontra, definitivamente, com o “homem relacional”.

O ensino da comunicação interdisciplinar

Ensino da comunicaçãoSegundo comunicólogo francês Dominique Wolton, a universidade deve abraçar “a questão das relações entre as diferentes formas de cultura e a comunicação” refletindo “os problemas didáticos, deontológicos, sociais e políticos ligados à interação maior entre conhecimento, cultura, economia e comunicação”. De um ponto de vista científico, afirma Wolton, “a comunicação sempre levanta a difícil questão da interdisciplinaridade. Ela é um objeto cientifico novo a ser construído, convocando varias disciplinas, e, ao mesmo tempo, obriga cada disciplina a reexaminar suas ferramentas e seus conceitos”.

Ampliar conhecimentos que transcendam tanto o aspecto técnico, quanto a questão ideológica, enriquecendo-se do contributo fundamental de outras disciplinas, coloca o ensino da comunicação diante de seu principal protagonista, meio e finalidade: o ser humano. É nele que todas as questões de “práxis” e pedagógicas se encontram, para fazer com que a comunicação de massa tenha uma positiva ressonância social.

Assim, o retorno à etimologia do termo “comunicação” – que sublinha a sua dimensão relacional – pode dar pistas importantes para a compreensão e a atuação dos sujeitos comunicacionais. Cabe, contudo, que as propostas pedagógicas existentes tenham a coragem de superar o doutrinamento tecnicista e ideológico, para mostrar que, acima de tudo, a comunicação – da pessoal à “de massas” – é um instrumento de encontro e promoção de valores comuns.

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