Category: Olhar cristão (Page 1 of 12)

Deus 2.0

Há tempos não tinha a oportunidade de refletir conscientemente e “em voz alta” sobre a minha visão de Deus e a sua aplicação nas minhas crenças e práticas religiosas.

A escolha de qual Deus adorar é uma herança familiar e, independentemente de como levei ela a diante, ela deu forma aos valores fundamentais que carrego comigo até hoje.

Um momento chave da minha adesão pessoal ao Deus cristão, católico, foi a minha Crisma. Durante aquele período de “formação religiosa” dificultei muito a vida dos meus formadores, questionando dogmas e práticas, ao meu ver, ultrapassadas e deturpadas. Já ali não aceitava a visão de um Deus distante, estático, que pune pecadores, seleciona os bons e os separa dos maus, que exige práticas de louvor e que ignora as mazelas da humanidade.

A partir da minha adolescência comecei a amadurecer uma visão de um Deus «acompanhante», que está ao meu lado e não “fora”, da mesma forma que se manifesta dentro de mim. Ele é a minha inclinação para o bem, o meu bom senso e, sobretudo, o Amor que carrego.

Recentemente tenho procurado reconceituar Deus e a sua relação com a Felicidade. Talvez a paternidade tenha um papel fundamental nessa tentativa de aprofundar meus credos para vivê-los melhor e explicar para minha filha o porquê das minhas escolhas.

Acho que o “meu” Deus está muito mais na busca da Felicidade do que em qualquer outra coisa. Toda a Sua manifestação direcionada ao bem que mencionei acima não é estática, é processo, relação, que depende de “um outro” para existir e por isso é tão difícil de «agarrar» e rotular.

Deus é dimensão relacional da natureza direcionada ao bem. E a Felicidade está na busca interior, na nossa essência, dos atributos e da disposição (as vezes custosa) do encontro com o outro (não necessariamente humano), profundamente diferente de nós. É nesse encontro entre diferentes, dispostos e abertos uns aos outros, que podemos experimentar a potência construtiva de Deus e é ali que habita a tal Felicidade.

Sour Cristina e o testemunho de uma Igreja que quer se renovar

Sour Cristina

Estando dessas partes do Atlântico, pude acompanhar ao vivo a final do programa The Voice Itália. Essa edição, em particular, ficou famosa em todo o mundo pela presença inusitada de uma jovem freira que, com seu talento, conquistou a simpatia dos italianos ao ponto de vencer o programa musical.

A humanidade dos consagrados

Sour CristinaComo católico, admito que fiquei contente em ver uma freira participando de um programa leigo e de grande audiência. Parecia-me uma ótima oportunidade para a quebra dos estereótipos atribuídos àqueles que abdicam de “controlar”, individualmente, a própria vida para viver, em comunidade, por Algo Maior.

Por sorte, além do contato constante com os consagrados do Movimento dos Focolares, durante meus estudos na Itália, tive a oportunidade de conviver com uma freira burundiana que me fez experimentar o afeto e amizade de alguém que se tornou, profundamente, minha “irmã”.

Freiras, padres, consagrados em geral são seres humanos como todos nós. Sonham, desejam, conquistam, sacrificam e perdem. Talvez a “santificação” que lhes é conferida – principalmente por quem não os conhece pessoalmente – é consequência do estupor diante da renúncia consciente e do testemunho de vida que eles promovem.

Suor Cristina: o fenômeno midiático

Suor Cristina é a prova concreta da surpresa coletiva ao ver na mídia uma jovem freira feliz e, acima de tudo, talentosa. Geralmente, atribui-se à vida consagrada pessoas feias, infelizes, fracassadas. A jovem italiana quis mostrar que isso não é verdade, mas a maneira como tudo aconteceu foi bem constrangedora.

Talvez por ingenuidade, Sour Cristina e suas coirmãs não imaginavam que hoje o mundo inteiro estaria falando delas. Por isso, provavelmente, aceitaram participar de um programa como o The Voice. Da mesma forma, a produção do programa musical pareceu não mensurar as consequências de terem aceitado a participação freira.

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Contudo, ao abrir sua boca, Suor Cristina não só mostrou seu grande talento com o microfone em mãos, mas começou uma experiência inusitada, que só terminaria ontem, na final da competição musical.

Pessoalmente, sempre que assistia a uma das apresentações da jovem freira, ficava feliz com o seu testemunho midiático. No fundo, acreditava que a sua presença iria estimular o apreço respeitoso pela escolha de vida da jovem consagrada.  Erro meu. Ontem, mesmo depois de mais de um mês convivendo com os treinadores e o staff do programa, não faltaram colocações preconceituosas, estereotipadas e até ofensivas relacionadas à freira.

Erros e acertos de uma experiência nova

Suor CristinaDe certa forma, acredito que, em linhas gerais, a participação de Suor Cristina no The Voice foi um movimento mal calculado, equivocado, pois, no fundo, a freira italiana estava participando de uma competição sem querer competir, sem o – aparente – desejo de ganhar.

A jovem Sour Cristina queria, acima de tudo, testemunhar, com seu talento, a alegria da sua escolha como consagrada; mostrar que escolher Deus não é abdicar dos prazeres e alegrias pessoais. Ambos são potencializados no doar-se aos outros. Mas, o The Voice é uma competição. É um programa feito para dar a oportunidade a cantores talentosos de começar a própria carreira.

O fato de Suor Cristina abdicar da vitória ocultou o motivo pelo qual o programa realmente existe. Isso ficou evidente no seu último episódio: a freira, ao receber o troféu de vencedora, nem sequer quis segurá-lo por muito tempo. Parecia que uma exaltação pessoal esconderia o verdadeiro motivo pela qual ela estava ali cantando. Em seguida, de maneira inesperada, ela recitou um Pai Nosso “ao vivo” com aqueles – poucos – que se dispuseram a acompanhá-la.

O momento um pouco constrangedor na “apoteose” do The Voice me fez pensar no modo como o mundo religioso deseja se fazer presente na sociedade. A mesma Suor Cristina disse, inúmeras vezes, que a sua decisão de participar do programa era impulsionada pelo convite do Papa Francisco aos cristãos para “saírem dos conventos” e evangelizaremo mundo.

Aparentemente, foi isso o que Suor Cristina fez, só não sei se era a maneira correta. Isso só o tempo poderá dizer. Mas, como o Papa Francisco disse:

“prefiro uma Igreja acidentada, ferida, enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar as próprias seguranças”.

Santo e homem. João Paulo II nos relatos de um homem comum

Na nossa vida, inúmeras pessoas passam, mas só algumas, mesmo sem um contato constante, permanecem presentes. Entre essas, pode acontecer também de alguma nem estar mais “neste mundo”, mas continuar viva dentro de nós, promovendo um sentimento interior difícil de explicar por meio da razão instrumental. Pois bem, na minha vida, e na vida da minha família, o falecido (e futuro santo) Karol Wojtyła é uma dessas presenças formidáveis que sempre nos acompanhou em momentos chaves.

Foi graças à visita do então Papa João Paulo II que eu pude conhecer aquela que se tornaria minha futura esposa. Foi também no seu funeral, em 2005, em Roma, que nos reencontramos depois de muito tempo distanciados e decidimos, juntos, reatar a amizade, que após muitos anos nos levou ao casamento.

Santos ou ídolos?

Santo e HomemPara quem não é católico será sempre complicado entender o significado da palavra “santo”. Na “mística popular” ela é constantemente relacionada a uma perfeição idealista ou, de maneira simplificada, alguém que está sempre seguindo com extrema retidão suas obrigações morais/religiosas.

Porém, a santidade cristã pouco tem a ver com uma perfeição romântica. Os santos são pecadores comuns que, durante a vida, praticaram inúmeros erros e acertos, como qualquer outra pessoa, mas que, aceitando a própria humanidade falha, foram além, transformando-se em um testemunho marcante, considerado exemplo para os outros cristãos.

Santo e homem

Justamente devido a minha admiração pessoal e pela presença de Wojtyła na história da minha família decidi, como primeiro livro de 2014, debruçar-me em “Santo e Homem”, livro que conta o relacionamento do Papa João Paulo II, com Lino Zani, um homem comum, instrutor de esqui nas montanhas do norte da Itália.

Santo e HomemA beleza do livro, para mim, não está nos relatos “místicos” das suas últimas páginas, que tentam justificar/relacionar os segredos de Fátima, com a vida do papa polaco. Na verdade, o que mais me tocou foram os relatos da simplicidade e da humanidade de Wojtyła. Apaixonado pelas montanhas, segundo os relatos de Zani, ele parecia encontrar especialmente nelas o Transcendente que exprime a grandeza do seu Deus.

Um ser humano excepcional que vale a pena ser conhecido, independentemente da sua profissão de Fé. E “Santo e Homem” é uma boa leitura para descobrir um pouco do homem por trás do famoso Papa.

(Caso alguém tenha o desejo de adquirir o livro, vi que ele está disponível no site da editora Algol)

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