Day: August 24, 2012

6 anos de escrevo Logo existo. Auto-Entrevista com Valter Hugo Muniz

Valter Hugo Muniz, 28, jornalista “filho da PUC-SP”, com passagem por diferentes experiências no mundo do jornalismo, com destaque para a produção do documentário “JORNALEIROS” (para assistir na íntegra clique aqui) que mostra as angústias e incertezas dos neo-jornalistas .

Concluída a graduação no Brasil, dois anos de Laurea Magistrale no Instituto Universitário Sophia, projeto acadêmico interdisciplinar de vanguarda, localizado na região do Val d’Arno toscano, aonde ele pôde aprofundar as teses levantadas em “Jornaleiros” e se concentrar em entender a comunicação de massas (e nela o jornalismo) a partir do ser humano, na sua integridade.

Hoje, há quase duas semanas vivendo novamente na sua amada São Paulo, Valter festeja o sexto aniversário do seu blog pessoal escrevo Logo existo, que totaliza mais de 160.000 acessos, 95 seguidores da página do blog no facebook, 100 assinantes diretos do blog e visitas com origem em mais de 70 países, números que podem ser considerados exorbitantes para um blog pessoal sem interesses econômicos  e estratégias de publicidade.

Por quê escrevo logo existo?

Porque escrevendo vejo que as barreiras espaço-temporais são rompidas, transformando a minha existência não só um fato pontual, mais um dom “sem medidas” para quem lê.

Em que sentido as “barreiras espaço-temporais” são rompidas?

Bom, uma coisa que acabo sempre redescobrindo é que alguns textos que escrevi no início do blog, em fases diferentes da minha vida, ainda fazem efeito nos leitores. Muitas vezes sou surpreendido com comentários e críticas de coisas que eu considero “passadas”, mas que têm significado para pessoas que agora vivem coisas que eu vivi antes.

Como surgiu a ideia de fazer um blog pessoal?

Foi no meu primeiro ano de faculdade de jornalismo na PUC-SP, em 2006, durante uma disciplina de produção de texto com a professora Raquel Balsalobre. Ela nos pediu para criar um blog para postar os trabalhos escritos e experimentar essa plataforma de produção de informação.

Mas o seu blog não é jornalístico, verdade?

Não. Tenho muitos escritos, poesias, crônicas, reflexões de muito antes da faculdade. Sempre gostei muito de expressar em palavras – e agora em fotos e vídeos – experiências vividas e meu olhar em relação ao mundo, do presente e do futuro.  Como, na sua maioria, os textos são “literários” e não “informativos” achei que não valeria a pena ter um blog jornalístico.

Então o escrevo Logo existo é pessoal e fala, sobretudo, sobre você?

Sim e não. Poderia dizer que o blog é sobre relacionamentos… comigo mesmo, com os outros e com mistério. Muitas vezes o que eu escrevo  exprime uma experiência feita diretamente por mim como no [VIDALOKA] ou [28 dias no país do Tsunami], mas nem sempre é assim. Uma história, reflexão ou poesia pode “surgir” por conta de algo que vi na rua, um sentimento depois de um filme, uma conversa… estímulos das mais variadas origens que geram comunicação.

Comunicação e não informação?

Isso… no modelo atual o significado de informação se baseia em uma transmissão linear e unidirecional. A Comunicação nasce também de uma transmissão, mas é dom de um emissor para um receptor da mensagem. Dessa forma a comunicação não se realiza somente no ato de escrever, doar-se… mas DEPENDE do leitor, do receptor da mensagem.

Em que sentido depende?

Não adianta escrever as coisas mais bonitas, mais profundas… se ninguém ler. Não basta que a informação seja transmitida. Se o que é escrito não toca e nem transforma as pessoas, não gera o desejo de reciprocidade, a comunicação é incompleta, é só informação.

Hoje o escrevo Logo existo completa 6 anos. É difícil encontrar projetos que sobrevivam tanto tempo e também com uma produção constante. O que te trouxe até aqui?

É verdade… se me lembro que quase todos os meus colegas de jornalismo haviam um blog pessoal em 2006 e hoje praticamente nenhum deles levou para frente a ideia, sinto que esse blog tem sim algo de especial. Mesmo sabendo que o escrevo Logo existo é cada vez mais parte de mim, como eu disse anteriormente, um modo de existir e me doar, tenho certeza que cheguei até aqui graças aos meus leitores, que não são muitos… tenho uma média de 100 acessos por dia… mas que em tantos momentos, quando eu estava desistindo, desanimando, escreviam um comentário, um e-mail, agradecendo por um texto escrito, uma poesia, me ajudando a perceber que os meus talentos foram feitos para serem desenvolvidos em prol dos outros, da humanidade e, por isso, devia continuar.

Como você vê o blog nesse sexto ano que começa hoje?

Igual…  sendo um suporte para as minhas reflexões e experiências. Tenho um sonho de, quem sabe um dia, encontrar pessoas dispostas a colaborar semanalmente com o escrevo Logo existo… alguém que gosta de cinema, música, fotografia, poesia… gente com o mesmo espírito e a mesma consciência de “comunicação” como troca. Seria também ótimo que mais gente conhecesse o blog, mas de maneira espontânea, não por meio de estratégias publicitárias.

Uma última pergunta… pensando no grande dramaturgo, apresentador do programa Provocações da TV Cultura, Antônio Abujamra… O que é a vida?

Para mim a vida é e sempre será os relacionamentos que podemos construir. E a beleza do relacionamento advém sobretudo do OUTRO… que é diferente… um abismo que quanto mais nos aproximamos, mais profundo se apresenta. São os relacionamentos que produzem vida… que nos movem ao novo, ao bonito, à felicidade. Viver é poder descobrir a beleza e os limites no relacionamento com o outro, superar medos, traumas e se deliciar com ele.

 

 

 

[vidaloka] Despedida

Despedida. Difícil explicar a intensidade do sofrimento vivido no segundo enterro em menos de 2 semanas de Brasil.

Nesses dias vejo a morte se aproximando cada vez mais dos «filhos da minha generação»,  mas também o casamento, a paternidade, o sucesso profissional…

Perder, ganhar, riscos, estabilidade, adquirem progressivamente pesos diferentes, as dores se intensificam e, proporcionalmente, também as felicidades.

Eu fui me despedir de uma amiga paraplégica, que viveu 30 anos a mais do que os médicos previam e que mesmo sem poder andar era “Phd” em construir relacionamentos, distribuir sorrisos, risadas e broncas.  Minha amiga Araceli testemunhava com a vida que felicidade não vem da perfeição fisiológica e sim do impulsos do “motor imóvel” aristotélico.

Contudo, despedidas são (e devem ser) sempre tristes. Produzem um vazio material. Mas a felicidade das boas lembranças enxugam as lágrimas, fazem até rir, mesmo se o sofrimento e, com ele, a saudade, permanecem intensos.

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